Esta página foi criada para receber contribuições ao debate sobre a Carta de Responsabilidades Humanas dos Artistas: opiniões, sugestões, artigos, críticas e propostas.
As diversas participações poderão ser realizadas nas várias linguagens artísticas.
contribuições para:
cultura@polis.org.br ou
artecultura@polis.org.br
Car@s integrantes da Rede Mundial de Artistas em Aliança:
Realizaremos um encontro Sul-Americano para a elaboração da Carta das Responsabilidades Humanas do Artista. O evento acontecerá na sede do Instituto Pólis, em São Paulo-SP, e reunirá artistas, produtores culturais e entidade que desenvolvem trabalhos artístico-culturais com o objetivo de refletir e debater sobre a responsabilidade humana do artista pelo reencantamento do mundo.
Apresentamos a seguir, a versão preliminar da Carta das Responsabilidades Humanas dos Artistas, reedigidas pelos poetas Hamilton Faria e Pedro Garcia, animadores da Rede Mundial de Artistas a partir dos debates realizados e dos documentos elaborados pela Rede desde 2001.
Este documento constitui uma série de reflexões e propostas sobre a responsabilidade do artista e estará aberto às contribuições d@s amig@s da Rede. Convidamos a tod@s a contribuirem na elaboração da Carta das Responsabilidades Humanas.
Pedimos que as contribuições sejam enviadas à Secretaria Executiva da rede, nos e-mails
cultura@polis.org.br/
artecultura@polis.org.br, ou para o endereço postal: R. Araújo, 124- Vila Buarque - 01220-020. São Paulo-SP, Brasil.
Um grande abraço,
Fernanda Versolato
Secretaria executiva da Rede Mundial de Artistas em Aliança
cultura@polis.org.br/
artecultura@polis.org.br
(55) (11) 2174-6840/ (55) (11) 2174-6841
O ARTISTA E AS RESPONSABILIDADES HUMANAS
A arte e o reencantamento do mundo
O papel do artista
“O real dever do artista é salvar o sonho”, nos diz Modigliani. E o sonho, em um mundo mercantilizado, torna mercantil o próprio sonho. Sonho de consumo, de um ter como sinônimo de felicidade. Bem distante do sonho apregoado por Modigliani. Sonho de artista, da arte revelando um mundo e criando outro, como queria Octavio Paz.
É neste mundo, cada vez mais despovoado de encantos, que se põe – para o artista – o desafio de reeencantá-lo. O que significa se por em campo para transformar a sociedade através da arte, num misto de Dom Quixote e Sancho Pança: um sonho com pé na terra.
A arte é o lugar por excelência da subjetividade e da criação, podendo mudar a visão de mundo de todos aqueles que dela se acercam.
É possível criar um mundo poeticamente habitável? Um mundo que não seja árido? Um mundo livre da violência e dos fundamentalismos em que os homens se destroem mutuamente? Um mundo que não se mova pela ganância, pelo lucro? Um mundo que não transforme o próximo em coisa?
Apontamos caminhos mas não temos respostas prontas. Sabemos que a arte é parte fundamental da sociedade e se contextualiza na ética da vida conectada ao paradigma-terra, ao paradigma-sonho, ao paradigma-maravilhamento. Talvez possamos caminhar nesta direção para tentar obter respostas às perguntas que acima nos fizemos.
Acreditamos, com Marcel Duchamp, que a arte é “um meio de libertação, de sabedoria, de contemplação e de conhecimento”. Nesta concepção, a arte, experiência espiritual da condição humana, é linguagem essencial da humanidade, sendo inseparável do ato de viver, da liberdade e de tudo que nela cresce.
O artista Bené Fonteles, integrante da Rede de Artistas em Aliança e do Movimento
ArteSolidária? afirma que “a arte é um exercício intuitivo para uma nova forma de perceber o mundo, estar e pertencer ao mundo".
Em síntese, a criação artística é vital:
para a preservação da memória;
para o desafio da invenção;
para a diversidade e identidade dos povos;
para o diálogo intercultural;
para o enriquecimento do imaginário;
para a aproximação solidária entre pessoas.
para aproximação entre as pessoas e a natureza;
para o equilibrio e a integridade espiritual do planeta .
Considerando que a arte:
é uma forma universal de expressão e comunicação, que preserva e promove a diversidade e a identidade cultural e espiritual das sociedades, reforçando o sentido de pertencimento à humanidade;
é inseparável do ato de viver, e se justifica pelo seu próprio existir, não estando a serviço de qualquer ideologia, nem sendo ferramenta ou instrumento do que quer que seja;
contribui para formar comunidades de emoção que nos une pelo afeto;
é produto da imaginação criadora e problematizadora do real;
tem papel fundamental na religação da sociedade, na reorganização do tecido social desfeito pela mercantilização das relações, pelo individualismo e pela violência;
é uma linguagem privilegiada para comunicação entre os jovens;
possibilita a vivência criativa, o sonho e a utopia, abrindo uma trilha para o reencantamento do mundo;
Julgamos ser responsabilidade do artista:
Estimular o diálogo com todas as correntes de pensamento e da criação artística, valorizando os processos criativos existentes na sociedade, não cedendo a pressões oriundas do mercado, do poder ou de qualquer discriminação de caráter cultural;
Abrir a sua obra para diálogos entre artistas e com o público em geral, compartilhando a sua criatividade com os outros; principalmente com aqueles que têm pouco acesso às oportunidades econômicas, sociais e culturais;
Estabelecer relações com os jovens, indicando-lhes caminhos e desafios na criação e fruição da obra e na formação do artista;
Participar e acompanhar a elaboração e implementação das políticas culturais, seja individualmente ou através de organizações profissionais independentes;
Contribuir para que a educação artística seja implantada - na educação formal e informal - facilitando a democratização da criação e do acesso às artes;
Estimular a criação de associações e cooperativas, fóruns e redes, para que possam melhor difundir suas experiências e interferir na realidade cultural onde se inserem;
Contribuir para a democratização dos meios de comunicação e ampliação dos espaços de debate sobre as artes e o papel do artista na mídia;
Promover a devolução pública de produtos e processos artístico ampliando as oportunidades de diálogos com o público através da distribuição de produtos (livros, cds etc), bem como estimulando a inclusão de cláusulas visando esta atitude nos editais, leis de incentivo a cultura e ações culturais;
Lutar pela preservação do meio ambiente, condição essencial para uma sociedade sustentável, utilizando materiais que preservem a natureza;
Contribuir para que as novas tecnologias de informação e comunicação (TIC) possam promover a diversidade cultural e o contato presencial dos artistas com o público;
Proteger e propagar o patrimônio material e imaterial de todos os povos;
Lutar pelo direito à remuneração digna, buscando proteger os direitos autorais de todos os artistas, principalmente daqueles pertencentes aos setores mais vulneráveis como os quilombolas, os indígenas e os mestres da cultura popular;
Ocupar a rua, que é o lugar por excelência da comunidade, e não apenas os templos da cultura;
Estar atento aos direitos garantidos ou indicados nas leis nacionais e nos pactos internacionais, como o Pacto Internacional das Nações Unidas sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, Encontros da Unesco e outras recomendações culturais .
Participar da criação da cultura de paz, tendo em vista o caráter agregador da linguagem artística;
Fortalecer intercâmbios e oportunidades de diálogo intercultural, base de novos paradigmas para uma humanidade que leve em conta a paz, a ética e o reencantamento do mundo.
REDE MUNDIAL DE ARTISTAS EM ALIANÇA
(DOCUMENTO PRELIMINAR)
Julho de 2006